segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Dignidade
Naquele lugar, gente humilde é bicho raro, mas que se vê de vez em quando. Cabelo com gel, barba feita e camisa arrumada, aquele crupiê era discreto como um botão de dealer. Estrábico, tinha um ar sério e polido, de sujeito honesto. Já vi darem cartas melhor do que ele, mas poucas vezes com aquela dignidade. Num intervalozinho antes da mesa final, ele me chamou num canto e, acanhado, pediu que tirasse uma foto sua. "Claro", eu disse, "tem problema não". Nem sei quem ele pensou que eu era. Até perguntou onde eu trabalhava, querendo me dar uma garrafa de uísque porque tinha ouvido um sim. Quando o jogo começou, tratei logo de fazer as fotos dos bacanas. Por último, fui tirar a dele — Deus sabia que não custava nada. Quando percebeu que tinha chegado sua hora, estendeu o braço em direção a quem devia falar — é o normal —, mas permaneceu assim, solene, muito mais tempo do que precisava. Não sei o quanto demorou naquela pose, mas foi o bastante para perceber que era seu momento de glória. No dia seguinte mandei a foto. Pouco depois recebi a resposta, um agradecimento sincero de um homem de bem. Penso cá comigo que não tem 12 anos que valha isso.
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